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Fevereiro 10, 2010
CARNAVAL NO RIO
tinta spray, pintura e colagem sobre papel - 2009 Houve um tempo em que o carnaval do Rio de Janeiro era algo ainda meio ingênuo com escolas de samba apresentando enredos inspirados e levados pra frente com sambas de primeira qualidade. A opção de ir para a Avenida Presidente Vargas, no centro da cidade, e ver a Mangueira e a Portela desfilarem numa época que as estrelas eram basicamente pessoas do povo que cantavam e sambavam demonstrando paixão pela sua Escola. O charme dos carnavais do Municipal, do Canecão, do Copacabana Palace com as mulheres do high society mostrando as coxas. A onipresença do playboy Jorginho Guinle se dando bem com atrizes de Hollywood que vinham curtir a folia carioca. Boas lembranças dos palanques montados nas transversais de Copacabana com os bailes infanto-juvenis nos finais de tarde. E ali ter a oportunidade de dançar e xavecar as garotas que eu paquerava na praia em frente à Rua Miguel Lemos, Posto 5. E como não recordar das músicas daqueles carnavais? A irreverência de a cada ano rolar versões que o povão adaptava dos sambas enredo das Escolas e adulteravam as letras das canções dando-lhes significado um tanto transgressor ou subversivo. “Olê-lê olá-lá pega no ganzê pega no ganzá... que beleza a nobreza que visita o gongá....” Este era o refrão da música Festa para um Rei Negro, da Escola de Samba do Salgueiro, campeã do ano de 1971. E daí foi um pulo para a malucada do underground zona sul modificá-la; e deste jeito a nova versão passou a ser cantada em uníssono por todos os lugares: “Olê-lê olá-lá pega no ganzê pega no ganzá... que beleza a maconha que vem lá do Ceará...” Sem essa de nostalgia, mas como eram bacanas os verões do Rio de Janeiro. Ali as coisas aconteciam. O Rio era p centro cultural do Brasil. Glamour e despojamento andavam juntos. Alienação e conspiração conviviam nas esquinas. A Cidade Maravilhosa em todo seu esplendor e sem as sementes da violência que puseram tudo, ou quase tudo a perder. Pegar um ônibus em Copacabana e descer perto da Praça General Osório para ver a Banda de Ipanema tendo como madrinha a atriz e musa Leila Diniz, gostosona que só ela e puxando a folia requebrando vestida num biquininho de provocar suspiros. E sem essa de nostalgia porque é lógico que o Rio de Janeiro continua lindo. É disparada a mais bela cidade do Brasil. As mulheres torneadas, o aroma peculiar que brota de suas entranhas, o relevo sensual da sua paisagem. Festa para um Rei Negro, samba enredo do Salgueiro, de 1971; e que foi transformado em hino do underground pela malucada que frequentava as dunas do barato da praia do Pier, em Ipanema. Fevereiro 7, 2010
PROSPERINÂNCIA A ARTE DE CULTIVAR A PROSPERIDADE SEGUNDO OS PRECEITOS DA YOGA DO CÍRCULO CÓSMICO KÁRMICO
tinta spray e pintura sobre papel - 2010 Não sinta vergonha de dar bom dia a cavalo, mesmo que passe por maluco; mas evite falar demais. No desjejum beba dois copos e meio de água filtrada. Pise com firmeza ao dar o primeiro passo saindo de casa. Observe para onde o vento sopra e alterne o olhar mantendo-se atento em sua volta e à distância. Veja o formato das nuvens que se movem no horizonte e faça um pedido inatingível. Peça o impossível. Querer mais não é pecado. Portanto, guarde sempre na carteira uma cédula de dinheiro novinho em folha para que ela atraia mais e mais dinheiro. Entregue uma moeda ao pedinte de rua, ainda que ele seja um farsante. O despreendimento eleva o espírito. Respire fundo por dez vezes consecutivas a cada meia hora. Não deseje mal ao próximo e não alivie com pessoas de temperamento sórdido. Nunca ofereça a outra face e não estenda a mão a quem você não confia. Não acredite nos deuses que as religiões apregoam, não acredite em santos ou pecadores. Cada indivíduo tem a sua própria verdade. Traga no bolso uma semente de seringueira para dar segurança no seu caminhar e para que almeje as alturas. Evite orações que clamam por dias melhores, pois elas apenas acentuam situações adversas. Mantenha a cabeça erguida e estimule demonstrar semblante de altivez. E ao fim do dia, antes de dormir, tome um banho frio e mentalize uma profunda limpeza enquanto a água cai por sobre seu corpo. Não esqueça o ditado que diz que o banho limpa o corpo e purifica a alma. Lembre de espanar os resíduos da cama, ajeite os travesseiros. Mantenha o cobertor ao alcance das suas mãos, pois o frio pode chegar durante a madrugada. Deite com o corpo estirado, de barriga para cima, ouça os ruídos noturnos. Exercite a respiração e tente compreender que a vida é uma experiência diária que não se repete. Fevereiro 5, 2010
OSSO DE ESTRANHO ANIMAL
pintura sobre papel - 2009 Observar ossos causa estranhamento. Encontrar uma ossada humana no bosque provoca arrepios de pavor. Animais reagem quando se deparam com restos de seus semelhantes. Você já reparou no comportamento dos cães ao ver um pedaço de osso de outro cachorro? Eles abaixam as orelhas, curvam o corpo, põem o rabo entre as pernas e se afastam andando de lado. Houve um rebuliço na pequena cidade de interior quando encontraram um osso de formato estranho e que não parecia se encaixar na anatomia de nenhum ser vertebrado que se tem conhecimento. Pessoas humildes disseram que aquilo era sinal de entidade maligna. E amedrontadas se trancaram em suas casas ao cair da noite. Um místico adepto da ufologia afirmou que era coisa de extraterrestres. Encaminharam o osso para o instituto legal da capital. E lá, além da confirmação de que se tratava de osso, não souberam determinar de qual animal seria. A notícia se espalhou e foi parar nas manchetes dos jornais e nas reportagens de TV. A crescente curiosidade da população gerou preocupação nas autoridades. Todos queriam uma resposta. O osso foi transportado para o mais respeitado centro científico de pesquisas avançadas do país. E logo de início foi descartada a hipótese daquilo ser um osso, e que estudos aprofundados poderiam explicar sua procedência. Os dias se sucederam, o tempo foi passando até que toda história caiu no completo esquecimento. Fevereiro 3, 2010
TWITTADAS DIRETAS DO VERÃO BAIANO
pintura sobre papel - 2009 . Bahia. Antes, terra de todos os sons e de todos os santos. Agora, terra do rock-axé e do pai-god. . “Se a Terra fosse quadrada...”, como Lula assim quis justificar um dos seus raciocínios; o quadrado, então, o que seria? . Cuidado, Brasil! Hugo Chávez vai imitar Zelaya. Fugirá da Venezuela, se instalará em Brasília e vai ser complicado tirá-lo de lá. . Eu não queria uma ponte Salvador-Itaparica. Mas quando vi o abaixo assinado que se opõe à ponte, eu agora fiquei a favor da ponte. . Amor de turista é um aceno de adeus pela janelinha do avião. Janeiro 31, 2010
BRINCAR OU CRESCER SHOULD I PLAY OR SHOULD I GROW
colagem sobre papel - 2000 Tanto tempo se passou e até parece que foi ontem. Olho o carrinho miniatura exposto na estante e constato que é tarde demais para brincar sem nenhum indício de preocupação. E ao mesmo tempo nenhum vestígio de sentimentos de descrença ou achar que a vida é fardo incômodo para ser carregado pelo resto dos dias que estão por vir. Brincar ou crescer, eis a questão. E agora percebo que o estilo de blusas que eu usava até outro dia não mais se encaixam no meu perfil. Por outro lado, as roupas que meus amigos de antigamente vestem não combinam com meu estado de espírito. Brincar ou crescer? Deverei permanecer deste jeito ou será que é melhor seguir em frente e deixar a inquietação de lado? Velho demais para festejar e, no entanto, a alma ainda tão jovem para desistências e nenhuma disposição para abrir mão dos sonhos. Janeiro 29, 2010
E SALINGER DEU UMA BANANA PARA O MUNDO E PULVERIZOU AGROTÓXICO NOS SEUS CAMPOS DE CENTEIO
compart - 2010 J. D. Salinger escreveu poucos livros em vida. No entanto, um deles, O Apanhador no Campo de Centeio, lançado em 1951, além de vender horrores tornou-se obra prima da literatura universal e fez o autor alcançar a glória. E a partir daí, com o passar do tempo, Salinger foi se tornando mais e mais recluso, outsider por excelência. E quase como Rimbaud do século 20, caiu fora da vida literária e deu uma banana para tudo e para todos. Uma grandessíssima banana muito da bem dada para a literatura e todo esse meio comandado por editores chefões traíras que querem sugar todas as palavras dos escritores para depois expô-las nas prateleiras dos supermercados. Salinger deu outra banana bem dada para a classe cultural. Um monte de gente invejosa, esses cuzões medíocres e envaidecidos pela sua desimportância. Banana para os imortais das academias de letras do tédio e que cheiram a mofo. Outra banana. Esta dirigida aos intelectuais da academia com suas teses indecifráveis que transformam o simples num emaranhado de suposições que vai e vem e vão e voltam para no desfecho da ação se perder no labirinto de idéias vazias. E mais uma merecida banana para o público que se deslumbra com autores de best sellers, e que gostam de ver seu escritor predileto nos programas de TV e citam seus parágrafos nas rodas sociais frequentadas pelas celebridades. Banana para os puxa sacos que pedem para tirar retratos ao seu lado portando maquininhas fotográficas digitais para depois deletar as imagens quando estão sóbrios em frente ao computador do escritório onde trabalham. Bananas para os que olham de soslaio e imploram autógrafos em pedaços de guardanapos amarrotados, que esquecidos no bolso das vestes se desintegram com sabão em pó e água na máquina de lavar roupas. Dizem que na manhã seguinte após o coquetel de lançamento do seu livro, Salinger andou pela cidade e chegou ao parque de diversões. Observou os brinquedos e fixou o olhar nas engrenagens do carrossel que ali rodopiava. Acendeu um cigarro e foi saindo despercebido até sumir de vista. Salinger, então, alugou uma pequena aeronave e decolou na direção oeste. E ao sobrevoar a área rural, ele pulverizou agrotóxico nos campos de centeio que ele mesmo havia plantado para, assim, preservar sua existência e a própria espécie. Janeiro 27, 2010
O BRASIL E O HAITI, E A HIPOCRISIA NA ORDEM DO DIA
tinta spray, pintura e desenho sobre papel - 2010 “A hipocrisia é o vício da moda, e todos os vícios da moda passam por virtudes”. Molière Tudo isso que está acontecendo com o Haiti é muito triste. E neste momento qualquer espécie de demonstração de solidariedade ao povo daquele país é mais que necessária. Porém, trata-se de grande hipocrisia todo esse ôba ôba incentivado pelas autoridades brasileiras para que nossa população se mobilize em torno da tragédia que destruiu Porto Príncipe. Mensagens e mais mensagens estão passando de mão em mão com pedidos para que façamos doações ao Haiti. E estas solicitações, vejam só, têm as digitais dos homens que ditam as regras no governo do Brasil. Há seis anos tropas militares brasileiras estão em missão no território haitiano, e o que elas fizeram de concreto e positivo além de ações sociais paliativas, e inócuas; e o aparente policiamento das favelas? É bem provável que a iniciativa brasileira de maior simbologia no Haiti tenha sido proporcionar àquele país um arremedo da nossa velha política de circo quando para lá foi despachada a seleção canarinho para uma partida de futebol com direito a desfile dos jogadores em carro aberto pelas ruas de Porto Príncipe. Qual o significado da intervenção de forças militares em terras estrangeiras sem que isso signifique, também, ocupação territorial com aspectos geopolíticos que afrontam a soberania da outra nação? E o que fazemos, afinal, num país tão distante quando todos nós sabemos que temos graves problemas internos para serem equacionados? E por que esse clamor do governo brasileiro para que ajudemos o Haiti, enquanto aqui nossas autoridades silenciam, fingem que não estão vendo e ficam inertes quando diariamente se sucedem nossas próprias tragédias sociais? Talvez a resposta esteja no fato de que uma bem urdida propaganda oficial, e enganosa, conseguiu se impor passando a idéia de que agora, com o governo Lula, o Brasil galgou ao posto de superpotência mundial desprovida de problemas. E assim sendo, pode se dar ao luxo de ajudar outros países. E repito mais uma vez que todos devem ser solidários com os haitianos, mas cada nação ou indivíduo deve ter consciência de até aonde seu braço alcança para que não fique apenas com a mão abanando levantada no ar. A verdade é que os governos brasileiros – todos eles, e desde que o Brasil é Brasil, jamais foram capazes de solucionar ou mesmo amenizar o abismo social decorrente de nossas contradições históricas. Nossos políticos sempre optaram pela demagogia e pelo toma-lá-dá-cá da corrupção. Nunca encontram solução para os estragos causados pelas chuvas e muito menos para o eterno flagelo da seca no nordeste. Permitem o inchaço das periferias urbanas que sobrevivem sem saneamento e com esgotos que correm a céu aberto. Não investem na infraestrutura, e muito menos em educação básica e digna, nem na saúde pública. Não enfrentam a violência que age diuturnamente contra o cidadão. Largam ao completo abandono as crianças de rua que só encontram refúgio no crime organizado e nas drogas pesadas. Nunca criaram condições preventivas para amenizar os efeitos de simples adversidades climáticas ou provocadas pela ação da natureza – chuvas, tempestades, ventanias, uma ressaca que danifica o calçadão a beira mar, uma estiagem prolongada. E agora, como vai enfrentar as consequências de um terremoto de enorme magnitude como este que devastou o Haiti; fenômeno sísmico que nem temos por aqui, salvo um ou outro abalo de terra quase imperceptível? Ainda com o agravante de ter que lidar com gente de costumes, idioma e cultura totalmente diferentes da nossa realidade. Enfim, a enrascada do Brasil ao se intrometer no Haiti é tamanha que agora, diante do acontecido, não dá mais pra sair de lá. E se o Brasil insistir em bancar o maioral querendo chamar apenas para si a responsabilidade, o controle e o comando das operações, as quais não somos capazes de promover seja por falta de estratégia e logística, seja por falta de preparo humano, seja por escassez de tecnologia e de recursos financeiros, deveremos estar preparados para as críticas, pois a nossa atuação no Haiti será ainda mais equivocada do que tem sido até aqui. Janeiro 25, 2010
SONHOS DE ESTRADA
desenho e pintura sobre papel - 2008 Meter o pé na estrada e sair por aí como fez Kerouac e viver do que se encontra pelo caminho e rabiscando anotações. E depois, quem sabe, lançar um livro e contar as aventuras recheadas com muitas mentiras para encantar os leitores. Quisera eu fazer agora uma longa viagem. Percorrer a América Central, do Panamá até o México. Amanhecer ao som das pedras que se movem levadas pelas ondas que entram em série na praia de La Libertad, em El Salvador. Ou cruzar o Atlântico e desembarcar no Marrocos, observar o céu noturno e sentir os ventos que sopram do Saara enquanto subo pelas trilhas próximas ao litoral passando por Casablanca, Kenitra até alcançar Tangier. Eu que sempre sonhei em fazer a Rota 66 dirigindo um daqueles carrões cadillacs americanos e pernoitar em motéis que anunciam hospedagens com luminosos de neon. E varar a madrugada acompanhado da dançarina do bar de beira de estrada. E tantas vezes em verões passados eu saí de casa rumo ao norte, rumo ao sul e sem nenhuma pressa em busca de algo que nunca encontrava, e apenas seguia pelo prazer de continuar indo em frente até decidir a hora de voltar. Janeiro 23, 2010
O QUE ACONTECEU COM O ROCK´N´ROLL? DE ÍCONE DA CONTRACULTURA A SÍMBOLO DO CONFORMISMO
pintura sobre papel - 2002 Este post é dedicado aos amigos Cláudio Moreira, Marcos Rodrigues e Osvaldo Brama. ------------------------------------ “Hoje, a maior ofensa de todas, tanto na arte como na cultura em geral, para não falar da vida política, é dar a impressão de defender algo melhor, um padrão mais exigente, que é atacado, tanto pela esquerda como pela direita, como ingênuo ou como `elitista´ (uma nova bandeira dos filisteus)”. Susan Sontag O grande barato do rock´n´roll sempre foi seu aspecto contracultural, e sem esta característica o rock simplesmente não rola e fim de papo. Discos super bem gravados com sonoridade pesada e guitarras no talo não são mais sinônimos de rock. E a maioria disto que está aí é “rock denorex”. Parece, mas não é. Mas existem velhos roqueiros na ativa mantendo acesa a chama criativa. Leonard Cohen, Dylan, Neil Young, Van Morrison, Patti Smith, Bruce Springsteen, Elvis Costello. Observemos suas letras e vamos perceber que tudo ali deriva da literatura beat, matriz da contracultura. Lembro de uma entrevista recente com John Sinclair – poeta, ativista, líder dos Panteras Brancas e empresário da lendária banda MC5; e perguntado sobre o que ele pensa a respeito do rock de hoje, Sinclair foi taxativo. Ele afirma que o rock perdeu sua importância como manifestação contracultural a partir do momento em que se tornou pop no sentido mais rasteiro da palavra e se direcionou em sua primeira intenção na busca pelo sucesso. E para ilustrar sua fala ele cita o exemplo do Eagles como símbolo desta guinada do rock para o comercial. E por favor, não vamos confundir o que Sinclair diz sobre o pop do Eagles, que era até uma banda bacaninha nos seus melhores momentos, e compará-lo com o pop de Elvis Presley (qualquer fase), ou de Del Shannon, ou mesmo dos Beatles, ou da Motown/Stax, ou do Mamas and the Papas. Pegue o contexto da declaração de John Sinclair, a qual envolve visão histórica de cultura versus práticas de marketing publicitário aplicado às artes e transfira para atualidade e estará explicada a paisagem de terra arrasada que tomou conta do rock de nossos dias. E mesmo tachada de maneira equivocada pelos incautos como "radical", quando na real ela sempre foi “liberal”, a tal postura "intransigente" do rock foi e é parte da essência deste gênero musical. Seja ela fake, ultrapassada, subliminar ou explícita. Mas eis que chegaram os tempos das distensões, da revisão dos conceitos que seguem as normas do politicamente correto e foi mais ou menos neste ponto que o rock perdeu de uma vez por todas a sua ligação com a contracultura. Adotou a diplomacia da boa vizinhança, e na tentativa de soar “original” e parecer bonzinho o rock se alinhou com “inimigos históricos” (hehehe, permitam-me esta provocação). Os roqueiros desgarrados da contracultura despertaram para as alegorias e os valores das manifestações culturais exóticas, as quais trazem em si uma forte carga de oficialismo. E deste modo o rock foi pro brejo num abraço de afogado com o marketing fazendo aflorar nas novas gerações o encanto pela aceitação dos seus trabalhos por um público de maioria conservadora. Sim, o hype e o "novo" também são extremamente caretas. Isto adicionado a sentimentos de culpa por um suposto passado de “radicalismos” desaguou na inevitável auto-indulgência dos roqueiros mais jovens. Típicas bobagens que afligem meninos amarelos católicos. Portanto, esperar o que depois disto tudo? Nascido em 1934, Leonard Cohen destila ironias de verve roqueira após ser indicado por Lou Reed ao Rock´n´Roll Hall of Fame, no ano de 2008. E para delírio da platéia ele finaliza declamando a letra de sua canção Tower of Song. Janeiro 20, 2010
SOB O GRANDE SOL AMARELO DO VERÃO
tinta spray, pintura e colagem sobre papel - 2003 - Aqui é complicado. Aliás, tudo aqui é complicado. Tudo! Assim argumenta um velho amigo da cidade de Salvador, ex-músico de jazz e atualmente corretor de imóveis que aproveita o boom imobiliário da capital baiana para faturar uns trocados. Faz tempo que não o encontrava. Estávamos no mesmo restaurante e eu queria saber suas novidades. E como um bom baiano, ele dispara a falar sobre o dia a dia do seu trabalho. - Veja bem, quando um prédio é lançado apenas um lado dele consegue ser vendido, que é justamente a parte voltada pro nascente. A parte que dá para o poente ninguém quer porque é um calor da porra. Eu não sabia desta peculariedade. E ele prossegue: - E enquanto não inventam um simulador de temperatura corporal; e ah seu eu pudesse, eu colocaria um ar condicionado Splinter em minha casa e quando chegasse o verão eu jamais colocaria meus pés na rua. Viveria na base do delivery. Caramba, não devo negar que às vezes eu também penso assim. - Salvador está numa decadência total e todos comentam sobre isso, mas ai de quem fale mal da Bahia. A Patrulha do Dendê parte pra cima com virulência desmedida para desqualificar o sujeito que fez a crítica. Humm... e não é que já senti isso na própria pele? Presto atenção às palavras do amigo. - Rapaz, imagine a Salvador de agora se não tivesse este marzão para camuflar a aparência derrubada da cidade? A cidade está horrorosa. O povo muito do mal educado. Concordo mais uma vez, eu também penso nestes detalhes. E ele gesticula dando ênfase às explicações... - O rico acha que tem o privilégio de fazer mal feito tudo aquilo que ele imagina ser permitido fazer por causa da sua condição social. São uns ignorantes com seus carrões de plástico importados da Coréia, são cafonas no seu mau gosto por coisas descartáveis. E aí eu lembro das lojas de grife dos shoppings e balanço a cabeça em aprovação ao que ele diz. - A população pobre não tem noção de cidadania. O cara mija na rua de frente para as pessoas que passam. O motorista de ônibus dá uma freada brusca só pelo prazer de ver a queda da velhinha que está em pé dentro do veículo. O papo está ficando sério e aí eu pergunto ao meu amigo insatisfeito que já que ele se sente como estranho em seu próprio ninho, por que, então, ele não vai embora de vez daqui? Foi a gota dágua pra ele se alterar. E vi sua jugular explodindo de raiva. - Pois não vou não! Eu nasci e cresci em Salvador. Viajei pelo mundo e voltei pra cá porque esta porra aqui é minha terra. E por isso tenho todo direito de falar mal das coisas que fazem minha cidade estar nesta merda. Ele encerrou o papo e foi conversar com um pessoal que estava numa mesa próxima. E por todo o resto do dia eu fiquei lembrando das coisas que ele falou. Pois é, vá lá que o cara está coberto de razão. Janeiro 18, 2010
OS DIREITOS HUMANOS SEGUNDO OS COMISSÁRIOS DA VERDADE
desenho sobre papel - 1983 É bem verdade que existem exageros quando alguns afirmam que o tal Plano Nacional de Direitos Humanos (PNDH-3) elaborado pelo governo Lula seja uma espécie de AI-5 Petista. Mas que eles têm grau de parentesco, isso ninguém pode negar. Contextualizando: O AI-5 foi o ato perpetrado em dezembro de 1968 pelo regime militar brasileiro em meio a uma escalada de acontecimentos que questionavam o caráter ditatorial dos governos comandados pelos generais. E ao entrar em vigor, o Ato Institucional nº 5 suprimiu o restinho de liberdades democráticas que ainda persistia no país após o golpe de 1964. Por seu lado, o PNDH-3 é um calhamaço de propostas lançado na surdina pelo governo do PT às vésperas do natal de 2009, e justo num momento em que a movimentação política passa despercebida devido às festas de fim de ano. Entre inúmeras coisas esquisitas o PNDH-3 visa rever a Lei da Anistia, estabelece limites à atuação da imprensa, cerceia a liberdade de expressão, impõe parâmetros ideológicos à manifestação artística e cultural. E não é a toa que diversos setores da sociedade levantaram a voz contra os fundamentos discricionários expostos no Plano Nacional de Direitos Humanos. Entidades de defesa dos direitos civis não alinhados ao governo perceberam brechas no PNDH-3 que vão de encontro às liberdades individuais garantidas pela Constituição vigente. Associações jurídicas chamaram atenção do perigo de um retrocesso político. No que se refere à revisão da Lei da Anistia promulgada em 1979, os militares acusaram a iniciativa de ter caráter revanchista quando sinaliza a punição de oficiais das Forças Armadas envolvidos em atos de tortura, mas em contrapartida nada fala de punições aos militantes da esquerda armada que também cometeram excessos. Por ser um dos alvos preferidos de Lula para rebater críticas que ele acha injustas, os meios de comunicação espernearam ao perceberem que o PNDH-3 aponta o dedo em sua direção. A Igreja Católica, em seus variados segmentos, desde os mais liberais aos mais ortodoxos, enxergou no PNDH-3 propósitos contrários aos seus dogmas. Como era de se esperar, a classe artística não deu um pio; e os ditos intelectuais “vermelhos” esboçaram um tímido abaixo assinado a favor do PNDH-3. O que também não é nenhuma novidade. Afinal, todos eles apóiam o presidente com fervor. São ligeiros para assinar manifestos quando o ideal de esquerda é questionado em qualquer parte do planeta, mas se calam quando ocorre a quebra dos princípios humanitários e democráticos em países companheiros, a exemplo de Cuba. E qual a razão em revisar a Lei da Anistia ao sinalizar com sentimentos de rancor quando tudo poderia ser direcionado para o esclarecimento de fatos sem que pudesse causar traumas às nossas instituições? Que se abram os arquivos da ditadura, que se escancarem as portas dos armários onde se guardam relatórios e fichas de cidadãos que não comungavam com o regime militar. É uma parte da nossa História que deve ser esclarecida sem subterfúgios. Mas daí vai uma longa distância o governo do PT e seus aliados ideológicos tentarem punir só um lado das partes e fazer de conta que eram santos os militantes da esquerda que pegaram em armas e mataram inocentes e colocaram bombas em vias públicas que atingiram pessoas que nada tinham a ver com a briga. Tanto os milicos da direita linha dura quanto os gloriosos “guerrilheiros” da extrema esquerda tinham almas de ditador. Ambos estavam prontos para cercear as liberdades civis e individuais. As suas mãos sujas com o sangue alheio tinham digitais idênticas, suas mentes autoritárias eram semelhantes. A Anistia pacificou o Brasil e levou o país ao caminho da democracia. E qual a real intenção em por em prática um plano que afirma proteger os direitos humanos, mas que na verdade viola pricípios básicos do estado democrático? ..................................................................... Mais um pouco do capítulo O Isopor de Lula: É mesmo comovente ver o nosso presidente manifestar pesar e solidariedade pelas vítimas do terremoto no Haiti. Pena que este seu sentimento não foi demonstrado quando as chuvas provocaram a tragédia em Angra dos Reis com dezenas de mortes. Silenciou-se o Lula sempre tão falante perante a dor de tantos brasileiros. Janeiro 15, 2010
POR QUE ELES ODEIAM AS ÁRVORES?
pintura sobre papel - 1988 Aqui no Brasil e mais especificamente na região nordestina os engenheiros civis, os arquitetos, paisagistas e urbanistas odeiam as árvores. É um fato generalizado. Em seus projetos e construções eles fazem a opção por jardins rasteiros com plantas ornamentais, porém nada de árvores que proporcionem sombras. Observe os mais recentes lançamentos imobiliários e verá que árvores de grande porte não fazem parte da paisagem. Salvo raríssimas exceções um ou outro projeto preserva as já existentes; e quase nenhum inclui o plantio destas espécies. Nestas regiões tropicais onde o calor atinge níveis insuportáveis os construtores parecem lutar contra a natureza ao tentar impor um paisagismo digno de latitudes temperadas como se o clima de Recife fosse igual ao de Curitiba. Nas capitais nordestinas a paisagem devastada se estende pela malha urbana sem que se possam encontrar árvores de grande porte. Elas estão confinadas nos parques e nas praças como se estes espaços fossem museus ambientais. Em 2002 eu fui convidado para conhecer um complexo turístico recém inaugurado no litoral ao norte da cidade de Salvador e ao chegar lá fiquei abismado com o descaso com o paisagismo. As edificações bem feitas, material de boa qualidade, mas a aridez tornava todo aquele ambiente desagradável na maior parte do dia. Não havia vegetação de sombreamento e o calor dos infernos aflorava do solo causando um enorme desconforto. Após o almoço e até as 5 da tarde, os hóspedes desapareciam e ficavam recolhidos em seus apartamentos desfrutando do ar condicionado. O calor era tal que ninguém sentia vontade de ficar nas áreas externas. Não era pra menos. Não havia nenhuma árvore por ali. Apenas as construcões em meio ao areal e cercadas pelos infames jardins rasteiros; e os coqueiros à beira mar. E aí chegamos a uma questão de difícil solução. A consciência ambiental e ecológica de uma determinada região está intimamente ligada ao nível de cultura e instrução dos habitantes deste local e da influência que as pessoas esclarecidas ali exercem. E por que será, então, que no nordeste do Brasil os profissionais envolvidos na construção civil dão demonstração explícita que odeiam as árvores? Janeiro 12, 2010
TUESDAY AFTERNOON - MOODY BLUES
compart - 2010 Quando estávamos ali na segunda metade da década de 1960 e tínhamos em mãos um disco do Moody Blues, deveríamos estar preparados para viajar no som, nas letras das canções e na capa do LP. Pra falar a verdade, eu sempre comprei os discos do Moody Blues pelo impacto visual das suas capas. E inicialmente não me importava muito com a música que eles traziam, pois eu aprendi que o som da banda era para ser digerido aos poucos; relaxado como num processo de meditação. O Moody Blues costumava chegar com um mix completo. Clima surrealista psicodélico bem característico da fase inicial do rock experimental, com nuances sinfônicas e pitadas da música folk britânica. Eles que foram um dos precursores do gênero musical que depois passou a ser categorizado como rock progressivo. Foi nos meses finais de 1968 que escutei pela primeira vez o Moody Blues através de um colega de escola que tinha o álbum Days of Future Passed, lançado um ano antes, em 1967. O nome do disco me intrigava. Algo do tipo “dias de um futuro que já passou”, e a mim tudo soava inusitado e diferente. E trata-se de um trabalho contemporâneo à Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band, dos Beatles, que eu também ouvira com perplexidade. E uma música de Days of Future Passed me prendeu a atenção logo de cara pela sua beleza e lirismo: Tuesday Afternoon. Ela ainda é das minhas favoritas de todos os tempos. Que puta canção! E se nas primeiras audições Tuesday Afternoon me impulsionava para realidades da fase inicial da adolescência, com o passar do tempo ela sempre teve a capacidade de induzir outras percepções e muitas tantas outras descobertas. Emoções hormonais se por acaso estivesse a dançar bem coladinho ao som de Tuesday Afternoon com uma garota na festinha de fim de semana. Emoções sentimentais por escutá-la ao lado da primeira namorada que mexeu com meu coração. E na primeira metade da década de 1970 eu passei a prestar atenção a coisas que diziam respeito à vida do meu país e quando eu escutava Tuesday Afternoon uma certa melancolia pairava no ar. A canção ainda me elevava para dimensões superiores, mas também fazia aflorar o gosto amargo do cotidiano entediante de uma ditadura militar com todo marasmo e obscurantismo que uma tarde de terça feira daqueles tempos poderia imprimir à alma de um garoto roqueiro ávido por liberdade. E anos mais tarde, com o advento do punk quando alguns de nós quebrávamos ou passávamos adiante nossos discos de rock progressivo, eu guardei meus álbuns do Moody Blues no canto da prateleira. Mas vez ou outra um fenômeno costumava se repetir quando eu manuseava minha coleção de LPs. E indeciso sobre o que escutar, e ao visualizar Days of Future Passed eu imediatamente o retirava da estante. Observava a ilustração da capa por alguns segundos, colocava o vinil no toca discos e dirigia a agulha para Tuesday Afternoon. E a longa viagem recomeçava e se enlaçava em ciclos sem fim pela abstração das lembranças e vivências do passado real e do futuro imaginário, e do passado que nunca foi futuro e do futuro que já passou. E até hoje tais sensações continuam a acontecer. E para isso basta soar os primeiros acordes de Tuesday Afternoon. ..................................................... (english version) When we were there in the second half of the 1960s and we held an album from the Moody Blues, we should be prepared to travel in the sound, the lyrics of the songs and the sleeve of the LP. To tell the truth, I always bought the LPs from the Moody Blues by the visual impact of their sleeves. And initially I did not care much about the music they contained, because I learned that the sound was to be digested slowly, relaxed as a process of meditation. The Moody Blues used to come with a complete mix. Those surreal and psychedelic climates characteristics of early experimental rock, with hints of symphonic and pinches of British folk music. They were one of the forerunners of the genre that later came to be categorized as progressive rock. It was in the final months of 1968 that I first heard the Moody Blues through a classmate who had the album Days of Future Passed, which was released a year earlier, 1967. The title intrigued me - Days of Future Passed. The music sounded unusual and different. And it is a contemporary work of Sgt. Peppers, by the Beatles, that I also heard with amazement. Immediately a track from Days of Future Passed caught my attention by its beauty and lyricism: Tuesday Afternoon. She is still one of my favorites of all time. What fucking song! And if the first hearings Tuesday Afternoon took me to the realities of adolescence, over time it always had the ability to induce other perceptions and many many other discoveries. Hormonal reactions if I dance with a girl to the sound of Sunday Afternoon on a party. Sentimental feelings by listening to it next to the first girlfriend that broke my heart. And then when I started to pay attention to things that concerned the life of my country and listened to Tuesday Afternoon in the first half of the 1970s, a melancholy filled the air. The song lifted me from that bitter taste of a boring everyday life under a military dictatorship with all those obscurantist stuff that a tuesday afternoon might bring to the soul of a rock´n´roll kid hungry for freedom. And years later, with the advent of punk when some of us destroyed or passed away our progressive rock albums, I was sure to keep my LPs of the Moody Blues on the corner shelf. But now and then a phenomenon used to repeat when I handled my album collection. And thinking of what to listen to and looking at Days of Future Passed I immediately withdraw it from the shelf. Watch the sleeve art for a few seconds, put the vinyl on the turntable and drive the needle to Tuesday Afternoon. And the long journey begins again and again entwined in endless cycles by abstraction of memories and experiences of the real past and the imaginary future and the past that was never the future and the future itself that is already past. And today those feelings continue to happen. And for that is enough to hear the first chords of Tuesday Afternoon. Clássico imune à passagem do tempo. Moody Blues toca Tuesday Afternoon numa apresentação em Paris, 1970. Janeiro 9, 2010
NÃO ATIRE NO PIANISTA
pintura sobre papel - 2010 Sentado em frente ao piano a bater nas teclas do instrumento no ritmo do honky tonky ou do ragtime, o músico animava as noites do salloon do velho oeste. E sabedor das desavenças que ocorriam nas quebradas daquela região ele colocava um cartaz ao seu lado com os seguintes dizeres: “Não atire, eu sou apenas o pianista”. O aviso era respeitado. Afinal o artista estava ali para tocar música para os presentes e sua figura pairava acima do bem e do mal. Tanto o bandido quanto o mocinho bebiam, se divertiam e dançavam embalados pelo pianista que era um ser diferente e ali no salloon a arma que ele punha os dedos eram as teclas do piano. Pano rápido e embarquemos no túnel do tempo... A violência que cresce e atinge a sociedade brasileira perante a inércia dos governantes está levando o país a um tempo de barbárie que nem no velho oeste se via igual. Convivemos no dia a dia com a violência sem nenhum limite e aqui nesta terra do homem cordial se estabeleceu a era da brutalidade. A Guerra Civil brasileira está cada vez mais sangrenta e se alastra por baixo do manto do discurso e da propaganda oficial que anuncia que vivemos num país das maravilhas que se desenvolve e encanta o mundo. Todos acreditam. E enquanto o baile continua; a bandidagem atira no pianista, não respeita os templos nem a moradia dos cidadãos comuns que não são responsáveis pelo estado de coisas que levou o Brasil a esta situação. ..................................................... AVISO AOS QUE ACESSAM ESTE BLOG: O serviço Google/Blogger continua apresentando problemas, os quais estão dificultando a acessibilidade dos blogs. Portanto, podem ocorrer momentos ou mesmo dias que este blog não esteja disponível na Internet. Esperamos a breve solução dos problemas e gostaria de dizer que estamos na ativa e peço que continuem acessando o Miguel Cordeiro Arquivos Janeiro 7, 2010
LOGAN E LOGIN
pintura sobre papel - 2009 Eram dois irmãos e quase vinte anos separavam suas idades. O mais velho chamava-se Logan e ele cresceu brincando nas ruas, correndo pra cima e pra baixo com os colegas do bairro. Inventava objetos para se divertir e descobriu as coisas por iniciativa própria, fuçando as dobras do cotidiano. Deu topada nas calçadas jogando futebol, guerreou com badogues e mamonas. Levou safanões dos amigos em jogos de prendas, conquistou a primeira mulher na base de muita lábia e intrepidez depois de ser rejeitado por tantas outras. Seu irmão caçula atendia pelo nome de Login. E quando ele se tornou garoto com capacidade para discernir o mundo em sua volta, os meninos da sua vizinhança não tinham mais o costume de fugir de casa para brincar na rua. Login passava os dias recluso em seu quarto e quando dali saía o máximo que seus pés alcançavam além da rotina de ir para a escola era o playground do prédio onde morava. Só soube o que era um sapo depois de ver uma foto deste animal numa revista. Logan nunca pediu licença para observar o que acontecia ao seu redor. Bastava ele pisar na calçada que o universo se mostrava por inteiro. Para perceber o que ia além dos seus membros, Login precisava preencher informações com dados ao seu respeito. Sem isso ele jamais seria capaz de caminhar. Logan achava que o mundo era pequeno para sua imaginação. Login sabia que o mundo é infinito. Logan carregava um peso nas costas que o fazia se locomover com dificuldade tal um animal pré-histórico e há muito extinto do planeta Terra. Login tinha a leveza invisível qual uma pluma que flutua; e se deixava levar sem saber que há sempre um local aonde o vento faz a curva. Logan vivia plantado com os dois pés na esquina onde o tempo não é mais o mesmo. Login navegava sobrevoando o espaço onde não existem entroncamentos. E em suas consciências nenhum dos dois era capaz de desvendar todo o mistério daquilo que se denomina vida. |